Desci a rua ainda molhada pela chuva da noite,
havia um ligeiro nevoeiro
que me trazia um aroma de luta.
Os meu pés estavam frios,
calçados apenas por uns sapatos gastos,
sentiam com precisão o empedrado húmido e irregular.
Sozinha sabia que aquele era o meu destino, o meu fado, a minha sina.
Deixar os dois meninos em casa, sem nada para comer,
sem um pai para os criar, sem livros para os ensinar.
E ir para a fábrica suportar aquele cheiro nauseabundo,
para conseguir comprar um pedaço de pão ou arroz.
Essa era a minha luta. A da sobrevivência!
Mas sabia dentro de mim, que uma vida não podia ser tão só,
tão dura, sofrida, explorada...
A luta também era outra, era conseguir que eu e todos os outros
em situações semelhantes superassem tais adversidades.
Não, esta madrugada não era uma qualquer madrugada
de alguma década longínqua. Era mais uma madrugada,
em que repetidamente e como um autómato,
cumpria o dever imposto a quem nada tem.
Era mais uma madrugada no século XXI.
Mas a luta não acaba nunca,
desço a calçada fria de cabeça erguida,
sei que estas leis dos mais fortes ainda se vão desmoronar,
e que eu, ainda vou calçar sapatos quentes e confortáveis,
alimentar e educar os meus meninos.
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