segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Gotas

Homónima a lágrima que cai lá fora,
com a gota de chuva que escorre na cara.
São as duas, água da mesma expressão,
húmida e gélida da solidão.

Pingam as lágrimas, formando rios,
de forma bruta e violenta!
As gotas secam no meu rosto,
por não terem chama que as alimente.

Já não há combustão possível,
entre as gotas dos olhos e a alma dorida,
mas a intensidade das lágrimas cai na calçada,
lavando a alma às pedras.

Escorrem as lágrimas dos Deuses na janela,
por verem que as gotas de chuva da face,
já não correm, já não lavam, já não sentem,
esperam apenas uma primavera.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Tattoo

Faço mais uma marca no meu corpo.
É a expressão mais vincada de um sentimento,
mas sem dor, porque a dor física não dói,
a dor na alma é que perdura.

Ao rasgar a pele, purgo-me de tudo,
do bom, do mau, da tristeza, das pessoas.
E ao cicatrizar, curo-me e renasço,
como uma fénix saída das cinzas.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Tua

Hoje rendi-me!
Libertei-me daquela máscara,
da redoma por mim criada,
que me parecia impenetrável.

Apenas um toque teu,
invadiu todo o meu espaço,
deixaste-me vulnerável,
e eu Gostei!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A dor insensível

Durante dias embati o meu corpo contra as pedras.
Doia, cortava, rasgava, dilacerava o meu pensamento.
Todas as expectativas criadas,
atingiam-me com tamanha intensidade!

Mas eu, de peito aberto à dor,
encorajada por dores já doridas, por cortes já cicatrizados,
encarava aquela dor com desprezo, com a superioridade
de quem já não sofre.

Comecei a perceber, que no decorrer do tempo,
cada vez que ia de encontro às rochas, sentia-me mais insensível,
as pedras já não doiam, a alma já não rasgava.

Curiosamente, comecei a perceber que havia um certo humor,
pois agora eram as pedras que se quebravam, as rochas
que se amedrontavam, elas é que iam de encontro a mim!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Morri em Liberdade

Frágil e magra saí à rua,
mantinha ainda uma réstia de esperança,
de que juntos podiamos mudar nossos destinos.

A vida somos nós que construímos,
mas na realidade, é ela que nos conduz e molda
naquilo que somos e nos tornamos.

Mas neste dia, o sonho falou mais alto,
a união faz a força, e juntos tinhamos esperança
de mudar as nossas rotas e o rumo do País.

O meu rumo havia sido traçado meses antes,
a fome que passara e os pulmões debilitados,
pareciam querer marcar-me o futuro.

Mas eu nascera com uma estrela,
uma luz que brilha e transborda,
apenas dentro de alguns iluminados.

Por isso saí e juntei-me aos demais,
o Regime ia cair, e nós eramos a força,
a engrenagem da esperança.

Corri o que pude, ri o que consegui,
beijei os que alcancei, abracei multidões,
saudei todos que se aproximaram.

Mas ainda havia armas de reaccionários,
que tentavam demover a força do Povo,
mas este, quando quer, é Soberano e diz BASTA!

E assim se mudou o destino de todos,
naquele dia a liberdade floresceu,
os sorrisos voltaram aos rostos dantes frios.

E eu também me libertei quando uma bala
me trespassou o peito.
Morri, mas morri em Liberdade!